quinta-feira, 20 de março de 2014

Choque de realidade

A euforia do passado recente deu lugar a uma onda de baixo-astral entre os cariocas. Na verdade, tanto o otimismo exagerado quanto a ressaca atual são equivocados

por Ernesto Neves e Felipe Carneiro | 19 de Março de 2014
Marcada por tendências e modismos, a temporada de verão no Rio costuma ser uma espécie de retrato dos padrões de comportamento e do estado de espírito carioca. No caso do período que começou em dezembro e termina dentro de duas semanas, as lembranças que ficam não são muito lisonjeiras. Tivemos arrastões nas praias, uma onda de assaltos na Zona Sul, episódios de violência em favelas pacificadas, lixo acumulado nas ruas durante o Carnaval, o caos no trânsito provocado pelas intervenções no centro da cidade, tudo embalado por um custo de vida altíssimo. Tantas experiências ruins dão a impressão de que a cidade foi tomada por uma ressaca depois da euforia decorrente de sua escolha como sede da Olimpíada de 2016. Nada mais natural, então, nos sentirmos pessimistas quanto ao futuro. Por mais legítima que seja, tal postura é um exagero. Assim como é despropositada a ideia de que a cidade se transformaria em um paraíso a um estalar de dedos. "As pessoas tendem a julgar a realidade pelo momento que elas vivem, sem pôr os fatos em perspectiva. Passamos por situações desagradáveis nos últimos meses, é verdade. Também estamos frustrados com a lentidão das mudanças. Mas é inegável que a vida está muito melhor hoje do que cinco ou seis anos atrás", avalia a filósofa e psicanalista Viviane Mosé. "Mudanças como as que desejamos são complexas e não acontecem de uma hora para outra."

Para chegar a uma avaliação objetiva dos reais desafios que enfrentamos, VEJA RIO selecionou seis afirmações que os cariocas têm ouvido — ou mesmo dito — com frequência nas últimas semanas, sobre temas que vão da economia à segurança pública, passando por trânsito e meio ambiente. Com a ajuda de especialistas, a revista se propôs a atribuir-lhes o que têm de mito ou de verdade a partir de dados concretos como números e estatísticas. O resultado pode ser conferido nas próximas páginas e, como mostram números e especialistas, não há nenhuma razão para entrarmos em depressão. O que existe pela frente é muito trabalho a ser feito.

A atual escalada de violência pode comprometer os ganhos na área de segurança pública

 
Roubos cometidos por menores no Arpoador e no Aterro do Flamengo. Policiais assassinados por bandidos no Complexo do Alemão. Tiroteios na Rocinha e no Pavão-Pavãozinho. Nos últimos três meses, seguidos sobressaltos instalaram o temor de que a espiral de violência dos anos 1990 estivesse de volta. O grau de histeria chegou a ponto de um adolescente suspeito de roubo ser preso a um poste com uma trava de bicicleta por um grupo de valentões que tentavam fazer justiça com as próprias mãos. As sucessivas ocorrências têm levado os cidadãos a acreditar que o modelo de pacificação de favelas adotado desde 2008 atingiu o esgotamento e começa a naufragar. A resposta a tal inquietação é não. Ainda que índices apontem o crescimento de 9,7% no número de homicídios da capital fluminense nos últimos doze meses, o cenário atual é muito diferente do de 1994. Naquele ano, chegou-se ao pico de 64 mortes violentas por 100 000 habitantes, taxa compatível com a de nações mergulhadas em guerra civil. Hoje, são 28 assassinatos por 100 000 habitantes, número alto se comparado a países civilizados, mas 56% inferior ao registrado em 1994. "Em termos de estratégia policial, as UPPs são e vão continuar sendo a melhor resposta já criada para combater o crime no país. Elas substituem a lógica do confronto, um tipo de abordagem fracassada", explica João Trajano, cientista político e coordenador do Laboratório de Análise da Violência da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. "As UPPs precisam de ajustes, principalmente na área de investigação. Mas não se pode desqualificar ou descartar o programa."

Os primeiros passos já foram dados nessa direção, e começam a mostrar resultados. Criada no fim de 2013, a delegacia de Polícia Civil da Rocinha capturou na terça (11) um suspeito de coordenar ataques à UPP da favela em fevereiro. Um dia antes, oito homens foram presos no Alemão, acusados de matar o soldado da PM Rodrigo Paes Leme. Inverter a lógica do crime, que por décadas dominou áreas inteiras da cidade, é tarefa árdua. Acostumados a determinar as regras em comunidades sob seu jugo, traficantes têm reagido à perda de território, como aconteceu recentemente na troca de tiros com policiais no Pavão-Pavãozinho. "Por anos, o carioca conviveu com tiros, assaltos e balas perdidas, o que nos legou uma memória traumática", diz o secretário de Segurança José Mariano Beltrame. "Quando um confronto entre polícia e traficantes acontece, a tendência é de fato acreditar que aqueles tempos ruins estão de volta", explica. O sucesso das ocupações do Morro Dona Marta, em Botafogo, e da Ladeira dos Tabajaras, em Copacabana, de extensão restrita e população pequena, criou a expectativa que o mesmo se repetisse em áreas maiores, como a Rocinha e o Complexo do Alemão. "Entramos em antigas megalópoles do crime, áreas de urbanização caótica onde é difícil realizar o patrulhamento. Temos de discutir a sério como urbanizar esses locais", diz o secretário. Hoje, a resposta ao crime é menos reativa e mais coordenada, o que também reflete as mudanças introduzidas nas forças de segurança. A situação do Rio pode estar distante do ideal, mas os dias de faroeste ficaram no passado.

Passados os grandes eventos esportivos, a economia do Rio entrará em um momento de retração

Os anúncios de que a Copa do Mundo e a Olimpíada viriam para o Rio de Janeiro trouxeram uma visibilidade inédita para a cidade e criaram uma grande expectativa nos cariocas. Vieram as promessas de obras faraônicas que impactariam a qualidade de vida dos moradores e impulsionariam o desenvolvimento urbano. Parte delas está saindo do papel, mas não são poucos os projetos que ficarão pelo caminho ou juntarão mofo nas gavetas da administração pública. A menos de 100 dias da Copa e a pouco mais de dois anos dos Jogos Olímpicos, começa a ganhar peso a sensação de que as mudanças não serão tão relevantes e que corremos o risco de retornar ao marasmo econômico em que ficamos atolados por quase três décadas. A realidade, entretanto, aponta para um cenário diferente. "Os grandes eventos são muito importantes, mas por terem data e hora para acabar deixam no ar a impressão de que depois da festa tudo volta ao que era antes", diz Marcelo Haddad, diretor da agência Rio Negócios. "As pessoas se esquecem de que o verdadeiro propulsor do desenvolvimento carioca e fluminense é o petróleo da camada pré-sal, que de fato transformará nossa economia."

A Copa e a Olimpíada, juntas, catalisaram importantes investimentos alinhados de União, estado e município em infraestrutura, como o Metrô e a Transcarioca. Mas é a exploração petrolífera na Bacia de Campos que determinará o futuro do Rio. Até 2017 a Petrobras investirá 127 bilhões de dólares na exploração, recursos que fluirão por uma cadeia de centenas de empresas de setores tão díspares como o naval, o alimentício, o hoteleiro e o portuário. É verdade que a petroleira brasileira vive uma crise, provocada principalmente pelo uso político que o governo federal faz dela. Também são reais os abalos causados pela implosão de outro gigante do ramo — o ex-bilionário Eike Batista, cujo retumbante fracasso arranhou a imagem do empreendedorismo carioca. Mas a enorme reserva de ouro negro continua no quintal do Rio e o preço do barril não para de subir. "Por uma série de decisões eleitoreiras do governo, ainda não estamos aproveitando o potencial que temos nas mãos. Isso não significa que toda essa riqueza não explorada se evaporou", afirma o consultor Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infraestrutura. Um relatório da agência de risco Standard and Poor’s (S&P) divulgado na semana passada dá a medida de nossa solidez econômica. Apesar da piora na avaliação feita pelos americanos do país como um todo (que passou da nota BBB estável para BBB negativo), a nota da cidade do Rio segue inalterada (BBB estável). Os motivos? Os analistas da S&P confiam que, mesmo sob um cenário adverso, a capital honrará pontualmente seus compromissos, dadas sua robusta economia, boa performance financeira e flexibilidade de orçamento. Citam ainda como exemplo de pujança o fato de o Rio ter um PIB per capita de 15 400 dólares, valor 3 000 dólares superior à média nacional.